Três Anúncios para um Crime | Crítica


Martin Luther King Jr., um dos maiores ativistas políticos norte-americanos, quando questionado sobre o fato de ser um extremista na luta pelos direitos civis da população afro-americana, respondeu:

(…) a questão não é se nós seremos extremistas, mas que tipo de extremistas nós seremos. Nós seremos extremistas do ódio ou do amor?

De alguma forma essa frase serviu de mote ao diretor e roteirista inglês Martin McDonagh (“Na Mira do Chefe“, “Sete Psicopatas e um Shih Tzu“) na construção da trama de Três Anúncios para um Crime. O título do filme, aliás, não poderia ter sido melhor traduzido no Brasil. O original, em tradução livre, ficaria como “três outdoors na entrada de Ebbing, Missouri”.

O longa acompanha Mildred Hayes (Frances McDormand), que passados alguns meses do brutal assassinato da filha sem nenhuma resposta da polícia local, toma uma decisão ousada. Ela aluga três outdoors na entrada da cidade com uma mensagem direcionada ao Delegado William Willoughby (Woody Harrelson), responsável pela investigação. A “campanha” traz o caso de volta aos holofotes e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente a própria Mildred.

Frances McDormand e Woody Harrelson em TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME.
Foto cedida pela Fox Searchlight Pictures. © 2017 Twentieth Century Fox Film Corporation Todos os Direitos Reservados

O filme, escrito e dirigido por McDonagh, tem na personagem de Frances McDormand (“O Bom Dinossauro“, “Ave, César!“) seu centro magnético. A partir da espetacular atuação da experiente atriz de 61 anos, toda a trama se desenvolve. É inegável o cuidado que o diretor teve ao compor sua protagonista, já pensada tendo McDormand como sua intérprete. O próprio McDonagh fala, em entrevistas, que não chegou sequer a cogitar outra atriz para o papel.

A escolha não poderia se revelar mais assertiva. McDormand consegue captar bem a essência de Mildred e transmiti-la em tela de forma contundente. O humor presente na obra, talvez um dos pontos baixos de Três Anúncios para um Crime, não ofusca a dor da perda e do luto de sua protagonista muito mais pela atuação da atriz que por conta de méritos de direção ou roteiro.

Neste sentido McDonagh se revela tão coadjuvante quanto os personagens de Woody Harrelson (“Planeta dos Macacos: A Guerra“, “O Castelo de Vidro“) e Sam Rockwell (“Poltergeist: O Fenômeno“, “Mr. Right“), ambos indicados ao Oscar da categoria. A tensão que a plot principal constrói em relação a um ódio que não pode ser controlado e as tensões que surgem a partir e em decorrência dele, são amenizadas através de um humor ácido que até funciona pontualmente mas acaba por prejudicar a absorção do impacto das tensões criadas entre os personagens.

Woody Harrelson e Sam Rockwell em TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME.
Foto cedida pela Fox Searchlight Pictures. © 2017 Twentieth Century Fox Film Corporation Todos os Direitos Reservados

O desconforto que o racismo escancarado de Dixon (Sam Rockwell) causa no espectador perde muito nesses respiros de humor. Ao lado de Mildred, ele é o personagem que, dentro do ciclo de ódio, enxerga as mazelas geradas pelo seu próprio comportamento. Não que McDonagh demonstre preocupação em redimir ou suavizar as atitudes deles ou ainda entregar um final feliz, embora uma interpretação nesse sentido seja válida.

McDonagh parece ainda tatear em busca de seu próprio jeito de fazer cinema. Em Três Anúncios para um Crime a inspiração dos irmãos Ethan e Joel Coen é clara desde a escolha da protagonista até a forma como o humor não intencional é utilizado. Infelizmente, diferente de suas inspirações, ele não consegue concatenar todos os elementos de forma confluente. A poderosa mensagem de amor e ódio acaba perdida na jocosidade que a precede.

Assista ao trailer:

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Pedro M. Tobias

Hier encore javais vingt ans! "O caminho do homem justo está cercado por todos os lados pela iniquidade dos egoístas e a tirania dos maus" (Ezequiel 25:17)

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