O Outro Lado do Paraíso | Audiência fácil transforma a trama num desserviço social

Novela vai na contramão dos folhetins que abordam temáticas sociais.


Quem acompanha O Outro Lado Do Paraíso viu que a personagem Laura (Bella Piero) sofreu abusos de seu padrasto, o delegado Vinícius (Flávio Tolezani). No entanto, o que deveria ser motivo de discussão social em torno da pedofilia e do assédio sexual, a trama foi engolida em torno de uma batalha entre coaches e psicólogos.

Tratando-se de uma ação paga pelo Instituto Brasileiro de Coaching, o autor Walcyr Carrasco forçou a situação para justificar a ação de merchandising. Tudo protegido pela liberdade artística do autor e sua produção.

A novela de Walcyr pouco se atém a realidade. As tramas são preguiçosas e trabalhadas em prol de uma audiência fácil. Não por menos conquista 40 pontos no Ibope com muita facilidade. No entanto, se ele pretende tratar de temas sociais, algumas coisas precisam ser tratas com mais responsabilidades. Mesmo que na ficção.

Não é raro existirem notas de repúdio de profissionais que não se sintam representados por obras televisivas. Porém em O Outro Lado do Paraíso foram cometidos uma série de equívocos passíveis de vergonha.

Separei aqui algumas situações inadmissíveis para uma trama que pretende abordar temáticas de discussão social:

Pedofilia e abuso sexual:

a trama de Laura foi totalmente conduzida de forma errônea para favorecer o merchandising do instituto Brasileiro de Coaching. A garota recebeu da coach Adriana (Julia Dalavia), inclusive, hipnose – prática autorizada penas para psicólogos qualificados. Isso tudo gerou uma discussão em torno da responsabilidades de cada profissional, colocando o debate principal em segundo plano.

Violência contra a mulher:

Gael (Sérgio Guizé) agrediu diversas vezes sua ex-mulher, Clara (Bianca Bin). Após uma série de absolvições por conta da sua mãe que é amiga do delegado, ele finalmente foi preso após uma tentativa de estupro. O que deu a entender é que apenas os casos mais graves que são passíveis de punição. E o pior: o autor culpou a espiritualidade do personagem como motivo das agressões. Sim, ele bateu porque estava literalmente com o “demônio no couro”. Como se não bastasse, Gael vive uma relação com Aura (Tainá Müller), que ama levar porrada.

Nanismo:

Estela (Juliana Caldas) surgiu na novela com a premissa de ser a primeira personagem a debater o nanismo. No entanto, isso não aconteceu. Apesar de ter doutorado, a personagem, que é rica, não faz nada além de se lamentar e se vitimizar com o seu tamanho. Reforçando, assim, preconceitos e estereótipos.

Homossexualidade:

O núcleo de Samuel (Eriberto Leão) sendo chamado pelo feminino por conta de sua sexualidade é algo ultrapassado é machista. Suzy (Ellen Roche) usa os termos para “inferiorizar” o ex-marido. Além disso, faz questão de falar para todo mundo que ele é gay. Algo totalmente contraditório ao que o próprio Walcyr pregou no final de Amor à Vida.

Justiça:

Todo crime que acontece na trama termina em pizza. Tudo é resolvido à base do suborno ao juíz Gustavo (Luis Melo). Em tempos de descrença na honestidade dos serviços públicos, uma trama assim assusta ainda mais a população, principalmente aos que não tem dinheiro. Na novela, quem tem dinheiro sempre sai impune.

A emissora defende que “as novelas são obras de ficção, sem compromisso algum com a realidade”. Mas, no momento em que Walcyr Carrasco, ou qualquer outro autor, se dispõe a prestar um serviço social, essa falta de cuidado acaba transformando todo o trabalho num desserviço à sociedade. Algo que nem aquela tela preta exibindo o “disque denuncia” no final de um capítulo mais polêmico resolve.

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Egnaldo Júnior

Colunista, escritor, blogueiro, humorista e radialista. Técnico em Segurança do Trabalho, Jornalista em formação. Amante da televisão, das séries, tecnologias e redes sociais. Adora comédia romântica e filmes de terror/horror. #Paz

O Outro Lado do Paraíso | Audiência fácil transforma a trama num desserviço social