Novela-série: O futuro da dramaturgia brasileira

Folhetins tiveram que encontrar uma nova fórmula para reconquistar o público.


Com mais de sessenta anos de existência, as telenovelas ainda são os produtos mais assistidos da televisão brasileira, tanto por homens, quanto por mulheres. Ainda assim, o gênero passou por um momento de crise. As tramas arrastadas e cheias de embromação foram afugentando uma geração que cresceu acostumada com a agilidade das séries, dos vídeos do YouTube e cada vez mais ligadas às redes sociais. Foi assim que surgiu a necessidade de adaptar a linguagem dos folhetins, assim como toda sua estética. O público ficou mais crítico e exigente, coube às emissoras correr atrás de agradá-lo fazendo algumas modificações pertinentes ao gênero “novela”.

O Outro Lado do Paraíso Clara e Galen Casamento
Divulgação/Rede Globo

O estrondoso sucesso da novela O Outro Lado do Paraíso, por exemplo, não chegou da noite pro dia. Enfrentando uma fuga de público na segunda semana de exibição, a novela de Walcyr Carrasco, sofreu um corte de 30% na trama. Isso deu um maior dinamismo na novela que já tinha fotografia, elenco e linguagem diferenciada. E com esse novo gás na trama, ela ficou ainda mais parecida com o que recebe o nome de novela-série.

A tendência da novela-série surgiu com a novela Amor à Vida, também de Walcyr. O ritmo dos capítulos era intenso e o público ficou cada vez mais envolvido com a trama do vilão Félix, interpretado por Mateus Solano. Verdades Secretas, do mesmo autor, foi outro sucesso que seguiu os mesmos moldes. A novela exibida na faixa das onze, abordava diversos temas polêmicos e, inclusive chegou a conquistar o Emmy Internacional de melhor telenovela. Situação parecida ocorreu com o fenômeno Avenida Brasil, de João Emanuel Carneiro. A trama era repleta de reviravoltas e os diálogos e cenas eram muito rápidos, exigindo, inclusive, uma atenção maior do telespectador. O autor já havia percebido interesse da audiência em tramas assim desde a reviravolta maestral de A Favorita, onde a vilã inverteu o papel com a mocinha. Ali o público foi pego desprevenido e adorou a mudança na trama.

Verdades Secretas Angel e Alex
Divulgação/Rede Globo

ParaNilson Xavier, autor do livro Almanaque da Telenovela Brasileira, as novelas precisaram se reinventar para acompanhar a evolução da sociedade: “Hoje em dia, a concorrência é muito mais ampla do que era há mais de 20 anos. É necessário acompanhar e adaptar-se à evolução do que acontece na sociedade, nas mídias e meios de comunicação”. Para a professora e doutoranda do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Cecília Almeida, as adaptações do gênero foram necessárias: “Vivemos hoje um cenário em que o novo consumidor de entretenimento tem à sua disposição uma quantidade muito maior de referências e conteúdos, no momento em que ele preferir.”

Para os pesquisadores, para que uma novela caia no gosto do público, ela deve apresentar alguns elementos: “Uma ótima trama, elenco, produção, direção, sabor de novidade aliado ao folhetim clássico e ao momento do país”, afirma Nilson, que também é membro da Associação Paulista dos Críticos de Arte (ACPA). Na opinião de Cecília, um fator primordial para o sucesso estrondoso de novelas como Avenida Brasilé o uso de uma boa vilã: “Cruel e carismática ao mesmo tempo, com uma atuação memorável da Adriana Esteves.” Ainda de acordo com ela, o que também chamou a atenção dos telespectadores foi a forma de contar as histórias: “Tinha arcos narrativos de duração menor – os mistérios não duravam do início até o final da novela -, tinha maior dinamismo na forma de narrar”. O pesquisador Claudino Meyer, doutor em ciências da comunicação e teledramaturgia pela Universidade de São Paulo (USP), explicou a mudança do público para a ISTO É: “O espectador não aguenta mais esperar meses para ver a solução de um mistério. Nesse novo modelo, os segredos têm de ser revelados em, no máximo, duas semanas.”

Os Dez Mandamentos Mar Vermelho
Reprodução/You Tube

Além dos seriados, o cinema também surgiu como fonte de inspiração. O diretores passaram a produzir uma fotografia mais elaborada, assim como os movimentos de câmera e efeitos especiais. Em Os Dez Mandamentos, da Rede Record, para que a cena do Mar Vermelho fosse produzida, contrataram a Stargate Studios, produtora de The Walking Dead. Segundo o site UOL, o capítulo custou R$ 1 milhão de reais. Na mesma emissora, um grandioso tsunami abriu o capítulo de estreia de Apocalipse, nova novela do canal. As cenas marcaram o estilo hollywoodiano de fazer novela. Cecília, que escreveu uma tese sobre as telenovelas, afirma que é possível ver hibridismo entre os gêneros o tempo inteiro: “Muito se fala de como as telenovelas aprenderam com os seriados ou com Hollywood, mas a gente vê os próprios seriados aprendendo muito com as telenovelas. Qual é o gênero que ensinou como faz pra segurar o suspense do espectador a cada final de capítulo? Foi a telenovela. E hoje a gente vê os melhores seriados trabalhando com esse recurso, de gancho. Então esse hibridismo pode ser visto em diversos exemplos.”

Mas não pensem que para fazer uma boa novela os autores precisam criar novas narrações do gênero. Por mais inovação que ele traga, os elementos principais do folhetim permanecerão. Cecília afirma:

“Todo gênero tem as suas fórmulas e todas elas já são facilmente reconhecidas pelo público, justamente porque foram muito repetidas. Isso acontece nos filmes de super-heróis, nas séries e também nas novelas. É o que permite que a gente identifique o gênero enquanto gênero. Tem uma série de coisas que permitem que a gente reconheça a telenovela enquanto telenovela: o fato de que o capítulo termina no momento mais dramático, que um capítulo é “colado” no anterior, e que são narrativas de maior teor melodramático, romântico”.

Walter Negrão, autor de novelas como Sol Nascente, ironiza: “Na verdade, tem uma definição muito simples de novela do Walter Durst [1922-1997]: são dois querendo ir para a cama e alguém empatando. A novela clássica é essa, e no fim eles [os mocinhos] se casam”. Por fim, Nilson completa: “Novela é folhetim. Em linhas gerais – claro com todas as variações possíveis – é isso o que o público quer ver. A mesma história sempre. Mas sempre contada de formas diferentes.”

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Egnaldo Júnior

Colunista, escritor, blogueiro, humorista e radialista. Técnico em Segurança do Trabalho, Jornalista em formação. Amante da televisão, das séries, tecnologias e redes sociais. Adora comédia romântica e filmes de terror/horror. #Paz

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