Crítica | O Estranho Que Nós Amamos


Por Thiago Schumacher

Melancolia, isolamento e desconfiança dominam o espectador em remake da diretora Sofia Coppola

A diretora Sofia Coppola, conhecida pelo longa de 1999, As Virgens Suicidas, e recentemente por Bling Ring: A Guangue de Hollywood, de 2013, retorna neste dia 10 de agosto às telas brasileiras com sua nova produção O Estranho Que Nós Amamos (The Beguilded, EUA/FRANÇA,2017). A obra é refilmagem do filme homônimo de 1971, estrelado por Clint Eastwood e dirigido por Don Siegel. A nova versão é muito bem elaborada e traz elenco de peso.

A trama acontece durante os anos de guerra civil americana. Nicole Kidman é Miss Martha, uma mulher que dirige uma escola/abrigo para meninas e jovens adultas. Junto com ela, Edwina (Kristen Dunst) dão aulas que vão de música à francês para suas pupilas; Alicia (Elle Fanning), Amy (Oona Laurence), Jane (Angourine Rice), Marie (Addison Riecke) e Emily (Emma Howard).

Tudo muda a partir do momento que Amy, ao colher seus cogumelos de rotina, encontra o soldado McBurney (Colin Farrell) ferido e caído no bosque. Motivada por forte sentimento de solidariedade, e vendo que o combatente não demonstra ameaça alguma, a jovem o ajuda a chegar na escola da senhora Martha, onde é cuidado e acolhido pelas moças.

Porém, a medida que o estranho recupera-se, as garotas que vivem em completo isolamento passam, pouco a pouco, a nutrir sentimentos e desejos pelo combatente. Gradativamente, o sentimento de desconfiança e ciúmes tomam conta das mulheres, inclusive, da conservadora Miss Martha.

Com base nessa premissa, a diretora Sofia Coppola, juntamente com o excelente elenco, nos apresenta um drama repleto de suspense que é belissimamente construído e desenvolve uma tensão gradual que é nutrida no espectador durante toda a projeção, até o clímax final.

Colin Farrell, único homem do recinto, consegue talentosamente transmitir uma certa confiança de que é uma boa pessoa ao mesmo tempo que pequenos atos do personagem dizem o contrário. A mesma coisa acontece perante as garotas da escola. Miss Martha, vivida por Nicole Kidman é uma das personagens mais emblemáticas do longa.

A diretora da escola é rígida, porém gentil com suas alunas e demonstra forte sentimento de proteção perante todas. Mesmo sendo intolerante e muito religiosa, a mandante também nutre sentimentos pelo soldado, mas controla-se fervorosamente.

A tensão é mais forte entre Edwina, interpretada por Kristen Dunst, que também dá aulas na isolada escola, e Alicia, protagonizada por Elle Fanning. Ambas estão no centro da maior parte da problemática perante o visitante inesperado.

Tecnicamente falando, a produção é muito bem construída. Chamo atenção especial à fotografia. A mansão com arquitetura romana, cercado por bosques e neblina é excelentemente retratado com tomadas que fazem nossos olhos saltarem. Somado a esse aspecto, as moças que transitam pela propriedade, trajando roupas da época, adicionam um tom de beleza e perigo eminente e constantes. Tal combinação chega a ser hipnotizante em certos momentos. De certa forma, o perigo mora em locais belos.

A mixagem de som é imersiva e brinca com os 7 canais de áudio da sala de cinema. Ao longe, podemos ouvir estouros de bombas que ecoam pela floresta, fazendo o espectador pensar que alguém no andar de cima do cinema está arrastando móveis. A floresta que cerca a propriedade quase que respira, pelo sons de grilos e pássaros. O sentimento de isolação é melancólico e desolador. Mixagem de som aliado à fotografia e beleza do figurino criam o ambiente perfeito para um drama de suspense.

O roteiro, no qual o longa baseia-se, vem da obra de Thomas Cullinan que foi adaptado ao cinema por Albert Maltz.

Não há muitos plot twists, mas sim revelações. O grande triunfo é a construção dos fatos. Isso sim, é cuidadosamente feito. Nos momentos finais, alguns espectadores já estarão na ponta dos seus assentos, justamente porque não há “cenas à toa”, que apenas prolongam a duração do filme. Tudo leva ao desfecho final.

Por fim, O Estranho Que Nós Amamos, é uma boa pedida para quem gosta de um bom drama, e está preparado para ser imergido em uma época desoladora, de guerra civil. Os cinéfilos mais atentos ficarão encantados com a beleza das cenas e com o detalhamento da mixagem de som. Tudo trabalhando junto na construção da forte tensão que toma conta da metade para o fim do filme. Se você, porém, não se encanta com os elementos mencionados, há chances de que a presente obra não seja para você. No entanto, nos elementos mencionados acima, o longa em análise triunfa, e isso é que importa.

 

 

Com ajuda do Review

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Thiago

Professor de inglês e Advogado. Apaixonado por música, filme e pizza!

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