Crítica | Fragmentado


Título original: Split

Ano: 2016

Gênero: Horror, Thriller

Duração: 117 min. (1h57min.)

Classificação: 14 anos

Roteiro: M. Night Shyamalan

Direção: M. Night Shyamalan

Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Izzie Coffey, Brad William Henke, Sebastian Arcelus, Neal Huff, M. Night Shyamalan

Acesse o site oficial do filme, clicando aqui.

 

Por Pedro M. Tobias

“Shyamalan está de volta (?)”

 

Desde que despontou no cenário mundial com O Sexto Sentido e Corpo Fechado, M. Night Shyamalan gerou sobre si uma grande expectativa. É seguro dizer que após A Vila a predileção do cineasta por plot twists passou a ser mais um fardo que um trunfo, na medida em que seus espectadores passaram a antecipa-los ou tentar prevê-los. A partir de então, seus filmes caíram consideravelmente de nível e Shyamalan passou a colecionar fracassos tanto de público quanto de crítica.

Em 2015, com A Visita, o Diretor se reencontrou com seu público, o que pode ser confirmado (ou não) com Fragmentado, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta (23).

O filme acompanha Kevin (James McAvoy), que em consequência de um trauma de infância, sofre de Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), tendo manifestado 23 (vinte e três) personas distintas. Ele é tratado pela Drª. Karen Fletcher (Betty Buckley), e através de sessões semanais consegue lidar com sua condição, até que, impelido por algumas de suas personalidades, sequestra e mantém em cativeiro três adolescentes.

Ao longo da trama, é revelado que três dessas personalidades assumiram o controle e aspiram trazer à luz uma nova personalidade, ainda adormecida, chamada por eles de A Besta (não, não é spoiler, essa informação está nos trailers e na sinopse do filme).

O TDI, originalmente denominado transtorno de múltiplas personalidades é uma condição mental em que um único indivíduo demonstra características de duas ou mais personalidades ou identidades distintas, cada uma com sua maneira de perceber e interagir com o meio. Geralmente é uma reação a um trauma como forma de ajudar uma pessoa a evitar memórias ruins, e o pressuposto é que ao menos duas personalidades podem rotineiramente tomar o controle do comportamento do indivíduo.

Na obra de Shyamalan, o personagem de James McAvoy (“Victor Frankenstein“, “X-Men: Apocalipse“) desenvolveu 23 personalidades, sendo mais exploradas pelo menos 5 delas: Barry, um estilista gay; Hewdig, uma criança de 10 anos; Patricia, uma mulher controladora; Dennis, um brutamontes que sofre de TOC; e o próprio Kevin.

Apesar da difícil tarefa, o ator escocês de 37 anos consegue empregar trejeitos distintos conforme cada personalidade emerge. O roteiro, obviamente, facilita a tarefa, fazendo uso de certos estereótipos, o que ajuda na caracterização e na rápida identificação de cada persona, o que não reduz o mérito de McAvoy. Há uma cena específica em que, após ser confrontado pela Drª. Fletcher, Barry dá espaço a Dennis, e a mudança de postura e de atitude é visível, mostrando a entrega e a capacidade do ator.

Entre cada persona não há uma mudança notável na caracterização (seja no figurino, na maquiagem ou no penteado). Basicamente, além do excelente trabalho de McAvoy, há leves (e, portanto críveis) mudanças no figurino do ator, graças ao primoroso trabalho de Paco Delgado (“A Garota Dinamarquesa“, “Irmão de Espião“). O próprio Shyamalan comentou isso, ao afirmar que preferiu não utilizar perucas ou mesmo penteados diferentes, deixando a calvície do ator como um quadro em branco onde apenas suas expressões levam de um personagem ao outro.

Anya Taylor-Joy é outro destaque dentro do filme. Ela interpreta Casey, uma das três garotas sequestradas por Kevin. A jovem atriz que apareceu pela primeira vez no filme A Bruxa (cuja crítica pode ser lida aqui), constrói sua personagem a partir do olhar. Todas as suas reações parecem destoar do esperado em situações de estresse, ou mesmo das de suas amigas, o que gera ainda mais interesse por parte tanto do espectador quanto das personas de Kevin.

Da esquerda para a direita: Hedwig, Patricia, Dennis e Barry.
Da esquerda para a direita: Hedwig, Patricia, Dennis e Barry.

Em Fragmentado, o suspense é trabalhado através do som e da fotografia. A Trilha Sonora, composta por West Dylan Thordson ressalta o suspense e o confronto entre luz e sombra criado pela fotografia de Mike Gioulakis e insere o espectador no suspense. O Diretor catalisa muito bem essa composição através de planos fechados e subjetivos e, por vezes, sem foco, indicando a alternância de personalidades de Kevin e sua guerra interior.

Os parágrafos a seguir contém spoilers do filme. Selecione o texto para ler.

Shyamalan introduz na trama um conceito que mais tarde é utilizado na cena logo após os créditos finais e que faz uma ponte com Corpo Fechado abrindo espaço para uma sequência conjunta de ambos os filmes, já anunciada pelo Diretor no Twitter (aqui). A Drª. Fletcher, tendo se especializado no tipo de distúrbio sofrido por Kevin, desenvolveu uma teoria própria de que o TDI seria “o caminho final de acesso para tudo que chamamos de desconhecido” e que seus pacientes, através do sofrimento, conseguiram desbloquear o potencial do cérebro.

No filme isso é mencionado em algumas cenas e um dos motores de Dennis, Patrícia e Hedwig é dar visibilidade à condição de Kevin. Quando uma figurante menciona, logo após os créditos finais, o “acontecimento com um cadeirante anos atrás”, Bruce Willis, reprisando seu papel em “Corpo Fechado”, afirma ser Elijah Price (personagem de Samuel L. Jackson no mesmo filme), colocando os dois longas em um mesmo universo “heróico”, por assim dizer. Isso abre muitas possibilidades para o Diretor explorar a temática tão popular atualmente (vide a quantidade de filmes de super-heróis lançados nos últimos anos) dando sua própria interpretação. Fim dos spoilers.

Com o tempo o espectador aprendeu a esperar pelos plot twists de Shyamalan, o que acabou colocando o Diretor em uma situação difícil. Há em Fragmentado uma promessa semelhante, o que de certa forma é verdade (veja a cena após os créditos finais). Infelizmente, essa promessa gera uma expectativa que acaba por prejudicar a correta absorção da obra e de suas camadas.

Como thriller, a jornada de Kevin e suas mais de 20 personalidades distintas é instigante e os conceitos desenvolvidos em volta do TDI são mais que interessantes. A forma como o Diretor aborda o tema, bem como prende o espectador do início ao fim da projeção sem precisar recorrer ao susto fácil e aos clichês que dominam o gênero marcam seu reencontro com o bom cinema.

AVALIAÇÃO GERAL: 80% (ÓTIMO)

 

Assista aos trailers:

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Pedro M. Tobias

Hier encore javalis vingt ans! "O caminho do homem justo está cercado por todos os lados pela iniquidade dos egoístas e a tirania dos maus" (Ezequiel 25:17)

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