A Forma da Água | Crítica


“A água toma a forma do que quer que a esteja contendo, e embora possa ser tão suave, é também a força mais poderosa e maleável do universo. Isso também é amor, não é?! Não importa em que fôrma colocamos o amor, ele se molda a ela, seja homem, mulher ou criatura”. É desta maneira que o diretor e roteirista mexicano Guillermo del Toro (“Círculo de Fogo“, “A Colina Escarlate“) descreve seu mais novo trabalho, A Forma da Água.

Fruto de uma vida inteira dedicada aos monstros que o salvaram, Del Toro encontra mais uma vez na fábula uma forma de transcender o “filme de monstro” através da construção de personagens extremamente complexos.

Obs.: A crítica contém leves spoilers do filme.

A Forma da Água
Reprodução

Elisa (Sally Hawkins) trabalha como zeladora em um laboratório experimental secreto do Governo dos EUA no auge da Guerra Fria. Ela acaba se afeiçoando a uma bizarra criatura anfíbia mantida presa no local, e com a ajuda de seu melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e da colega de trabalho Zelda (Octavia Spencer) planeja uma missão de resgate.

A Forma da Água é, sem dúvida, o filme que Del Toro sempre quis fazer. Em entrevista ao Hollywood Reporter (que pode ser lida na íntegra aqui) ele afirmou que após assistir O Monstro da Lagoa Negra, ainda com 7 anos, ficou fascinado.

A criatura tinha o design mais lindo que eu já vi. Eu o vi nadar sob a [atriz] Julie Adams e adorei que a criatura estivesse apaixonada por ela e senti um desejo quase existencial de que eles acabassem juntos.

Infelizmente isso não aconteceu, e não só a criatura não conseguiu ficar com a “mocinha”, como acabou sendo morta a tiros.

Aqui o diretor se une à roteirista Vanessa Taylor (“Game of Thrones“, “Divergente“) para além de entregar o final que ele sempre quis para um de seus filmes preferidos, prestar uma homenagem ao cinema clássico e de horror. É notável como o roteiro e sua materialização no filme conseguem tratar temas delicados e complexos com uma sensibilidade singular.

A Forma da Água
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O Homem Anfíbio (Doug Jones) acaba sendo mais um dos underdogs de Del Toro, alguém que não se encaixa em um suposto – e totalmente preconceituoso – padrão. Junto a ele podemos colocar, claro, Elisa, alvo de chacota por ser muda, Giles, cuja vida foi marcada por não conseguir se assumir gay em uma sociedade machista e homofóbica, e Zelda, que no auge da segregação racial nos EUA ouve coisas como “isso não é comum para sua gente” do personagem interpretado por Michael Shannon (“Deserto em Fogo“, “Animais Noturnos“). Aliás, Shannon entrega um vilão (um verdadeiro monstro) de forma muito competente. O modo unilateral e retrógrado como seu personagem enxerga o mundo é perceptível até mesmo pela postura que o ator imprime a ele.

A força motriz do filme, contudo, é a atuação de Sally Hawkins (“As Aventuras de Paddington“, “Maudie“). A jornada de sua personagem, da solidão e da impotência a uma heroína que assume e enfrenta grandes riscos representa o coração e a alma de A Forma da Água. A atriz britânica mostra domínio total de cena mesmo diante do esforço de se expressar sobretudo através do corpo. Não apenas em relação ao fato de sua personagem ser muda e a atriz ter precisado aprender linguagem de sinais, mas pela própria forma como Elisa enxerga o mundo… Ela projeta nos musicais que assiste ao lado de Giles suas aspirações românticas e parece leva-las consigo a todo instante.

Del Toro tem consciência do poder de sua protagonista e da atriz que a interpreta e não cansa de ressalta-la em cena. Hawkins funciona como um pólo magnético para o qual todos os elementos confluem. Isso claro, não ocorre de forma exagerada, mas orgânica dentro da proposta narrativa. É interessante notar como o uso das cores e suas texturas, algo que sempre marcou o cinema do diretor, é amplificado de forma impecável.

A Forma da Água
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O mundo de Elisa é todo verde, e ao longo do filme vai se tornando cada vez mais vermelho. O sapato (vermelho) que ela olha na vitrine a caminho do trabalho representa seu desejo pela paixão, por um amor como o dos filmes que ela tanto admira. Além do romance, o vermelho também simboliza a morte, e conforme as peças do vestuário dela vão se tornando cada vez mais rubras (a faixa no cabelo, o casaco etc.) a trama parece apontar para um fim semelhante ao d’O Monstro da Lagoa Negra.

Gill-Man de Del Toro é interpretado por Doug Jones (“The Danger Element“, “The Circuit“), colaborador frequente do diretor, que parece ter alcançado ao longo dos anos a maestria da atuação por trás de máscaras e próteses. A inspiração vem, obviamente, do mestre Lon ChaneyO Homem das Mil Caras. A relação entre ele e Elisa é construída através de uma harmonia entre som e silêncio. A barreira da fala é na verdade o que os une… A própria Elisa desabafa “ele me vê pelo que eu sou e como eu sou”.

A banda sonora reflete essa aparente falta de comunicação entre os protagonistas. Todos os sons são percebidos graças ao brilhante trabalho de Edição e Mixagem de Som de Nathan RobitailleSylvain Arseneault e toda sua equipe. A sequência que abre o longa, um plano sequência subaquático seguido de uma montagem da rotina matinal da protagonista é mais do que representativa do trabalho excepcional nesse sentido.

A trilha sonora, composta pelo francês Alexandre Desplat (“Baseado Em Uma História Real“, “Valerian e a Cidade dos Mil Planetas“), que não havia trabalhado com Del Toro até então, completa a sonância e dá o tom fabulesco que vivifica a história de amor ali representada.

A Forma da Água
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É impossível não mencionar o excepcional trabalho de Fotografia de Dan Laustsen (“A Colina Escarlate“, “John Wick: Um Novo Dia Para Matar“). Ele compõe visualmente e acentua a narrativa das cores, além de inbuir o filme da fluidez que a história pede através de movimentos precisos de câmera. É fenomenal o uso do dry for wet para as cenas subaquáticas. A técnica consiste em utilizar fumaça pesada, ventiladores potentes e projeção para criar uma atmosfera semelhante à água, o que permite que os atores atuem com os olhos abertos, o que é vital para sua expressão corporal.

Assim como toda a filmografia de Guillermo del ToroA Forma da Água é uma obra madura e ciente de si, com a vantagem da maturidade que quase 30 anos na indústria cinematográfica deram a ele. Todos os elementos que caracterizam seu cinema estão presentes em maior ou menor escala. Certa vez o diretor revelou que sua maior ambição como realizador era fazer com com que um de seus filmes replicasse a sensação que teve com a cena final do Frankenstein de James Whale. Não é exagero dizer que A Forma da Água, se não chega a esse ápice, está bem perto disso.

 

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Pedro M. Tobias

Hier encore javais vingt ans! "O caminho do homem justo está cercado por todos os lados pela iniquidade dos egoístas e a tirania dos maus" (Ezequiel 25:17)

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