Crítica | Ex Machina: Instinto Artificial

by


MV5BMTUxNzc0OTIxMV5BMl5BanBnXkFtZTgwNDI3NzU2NDE@._V1_SX214_AL_Título Original:
Ex Machina

Ano: 2015

Gênero: Drama, Ficção-Científica

Duração: 108 min. (1h48min.)

Classificação: 16 anos

Roteiro: Alex Garland

Direção: Alex Garland

Elenco: Alicia Vikander, Domhnall Gleeson, Oscar Isaac, Sonoya Mizuno, Corey Johnson, Alina Alminas, Symara A. Templeman

Acesse o site oficial do filme, clicando aqui.

 

Por Pedro M. Tobias

“Afinal, o que define o ser humano?”

 

Em sua estreia como Diretor, o roteirista Alex Garland (“Extermínio“, “Sunshine – Alerta Solar“) demonstra potencial numa obra de ficção madura que questiona, dentre outras coisas, a própria existência humana. O roteiro, também assinado por Garland, beira a genialidade ao explorar temas complexos através de uma trama que à primeira vista se mostra simples, mas que ganha profundidade ao longo do filme.

A trama acompanha o jovem programador Caleb Smith (Domhnall Gleeson) que, ao ganhar um sorteio, é convidado a passar uma semana na casa de Nathan Bateman (Oscar Isaac), chefe da empresa em que trabalha. O objetivo da “visita” de Caleb é aplicar o famoso Teste de Turing em Ava (Alicia Vikander), Inteligência Artificial criada por Nathan. O Teste tem como objetivo descobrir se uma entidade é (ou não) um computador.

[accordion]

[section title=”Alerta de Spoiler”]O parágrafo abaixo contém spoilers sobre o filme[/section]
[section title=”Clique aqui para ler”]

O que mais agrada na plot principal de Ex Machina, é observar a construção dos personagens vividos por Isaac e Gleeson em contraponto à constância demonstrada por Ava. Enquanto Nathan vai ganhando contornos megalomaniacos, Caleb parece duvidar até da própria existência, como na cena em que corta os pulsos à busca de engrenagens robóticas. Nesse sentido, agrada muito a sinergia entre o trio, mesmo não possuindo nenhuma cena conjunta. A forma como Ava, buscando apenas “se libertar”, manipula Caleb ao mesmo tempo em que o faz acreditar ser Nathan o manipulador só fortalece o suspense do filme.

[/section]

[/accordion]

ex-machina-5

Através do Teste o diretor/roteirista trabalha suas maiores críticas. O que define o ser humano? Em uma das muitas cenas de diálogo expositivo do filme Nathan obtém de Caleb a seguinte resposta ao questioná-lo sobre o formato do teste: “Testá-la conversando é um ciclo fechado. Como testar um computador de xadrez só jogando xadrez. Você pode jogar com ele pra ver se ele joga bem, mas isso não demonstra que ele sabe que está jogando xadrez e não diz se ele sabe o que é xadrez”.

Através da interação entre os personagens, favorecida especialmente pela excelente montagem de Mark Day (“Sem Proteção“, “Questão de Tempo“), é possível perceber como a humanidade vai muito além da compreensão do saber ou do espaço ao redor. Ava é mostrada desde o início como uma “máquina”, o que chega a ferir uma das premissas básicas do Teste, segundo a qual quem o aplica não deve saber sua condição (se humana ou robótica). Essa percepção sensorial dela nos leva a enxergá-la sob dois âmbitos. Por um lado é encantadora sua sensibilidade e a forma como enxerga a “vida”; por outro suas motivações não parecem claras, como se estivesse ocultando algo.

Outra metáfora que merece destaque envolve a empresa de Nathan, a Blue Book, responsável pelo motor de busca na internet que é líder mundial [em uma clara analogia/referência ao Google]. O próprio Nathan chega a afirmar, em determinado momento, que seu “buscador” não quer saber o quê as pessoas procuram, mas sim porquê, numa alusão à internet influenciando (e porque não gerando) certos padrões de comportamento através de engenharia social. Ora, é o homem sendo pautado pela máquina. Neste sentido, livre arbítrio passa a dar lugar à coerção e à alienação.

Ex-Machina-Gallery-10

As atuações do trio de protagonistas contribui de forma decisiva para o sucesso do filme. Não fosse a presença marcante porém contida de Isaac (“Robin Hood“, “O Ano Mais Violento“), o intimismo inocente de Gleeson (“Bravura Indômita“, “Dredd“), ou mesmo o olhar inocente, curioso e apaixonante de Vikander (“Anna Karenina“, “O Sétimo Filho“), Ex Machina não teria o mesmo peso dramático.

Composta em conjunto por Geoff Barrow e Ben Salisbury, a trilha sonora ajuda muito na construção do visual estético do filme. Em sua maioria instrumental, o minimalismo escolhido pelos compositores reforça e dá o tom levemente sombrio à obra. É curiosa a escolha da única música incidental do filme. “Husbands“, da banda inglesa Savages, que toca logo ao final dos créditos. A canção traz em sua letra um pouco do que foi mostrado da personalidade de Ava ao longo do filme. Fica a recomendação.

O principal mérito de Ex Machina reside numa excelente combinação entre fotografia e direção. Garland acerta a mão ao escolher enquadramentos mais fechados deixando a sensação de vertigem claustrofóbica. O Diretor de Fotografia Rob Hardy (“Perdão de Sangue“, “O Nosso Segredo“), por sua vez, reforça esse caráter ao escolher tons acinzentados para as cenas internas e contrastá-los com o vermelho em uma cena ou outra. Impossível não creditar também Mark Digby (“Quem Quer Ser um Milionário?“, “Dredd“) pelo excelente trabalho na criação do ambiente da casa onde se passa a maior parte do filme. As paredes que funcionam quase como espelhos dão um toque mais que especial ao cenário.

O termo ex machina pode ser traduzido literalmente como “saído da máquina”. Na obra de Garland, vemos como Ava emerge das profundezas da mediocridade (e arrogância) humana representada por Nathan e percorre um caminho, não necessariamente físico, rumo a uma catarse que não é dela. É o espectador quem parece passar pela experiência de libertação almejada por ela.

Em contramão ao que se tem produzido nesse sentido nos últimos anos, Ex Machina é um filme maduro. Apesar de não se ater muito a discutir profundamente todos os temas explorados (até porque não é necessário), podemos enxergar na obra excelentes argumentos e metáforas. Em seu primeiro longa como Diretor, Alex Garland mostra que tem potencial para figurar entre os grandes.

AVALIAÇÃO GERAL: 90% (EXCELENTE)

 

Assista ao trailer:

Eita, vê se gosta desses aqui também