Crítica | Dona Flor e Seus dois Maridos (2017)


Remake de sucesso dos anos 70 é uma ‘novela pornô’.

O cinema brasileiro continua a todo vapor e dessa vez, a aposta é o remake do sucesso dos anos 70, Dona Flor e Seus Dois Maridos. Os dois longas (1976 e 2017) são baseados na obra homônima de Jorge Amado. Compondo o elenco, Juliana Paes vive Dona Flor – originalmente interpretada por Sônia Braga, Leandro Hassum encarna o Dr. Teodoro, outrora encenado por Mauro Mendonça e, finalmente, o icônico papel de José Wilker é repassado a Marcelo Faria que interpreta Vadinho.

A direção fica a cargo de Pedro Vasconcelos, conhecido por títulos como O Concurso (2013) e a telenovela Paraiso (2009) da Rede Globo.

A premissa do presente título já é bastante conhecida na cultura popular, afinal, o longa original foi a terceira maior bilheteria de um filme nacional e um dos trabalhos mais notórios de Sônia Braga.

Na trama, Flor (Paes) é uma professora de culinária casada com Vadinho (Faria), um homem cheio de vícios, mas que a satisfaz na cama. Quando seu cônjuge morre subitamente, vem a casar-se novamente, com o farmacêutico Dr. Teodoro (Hassum) que, apesar de romântico e respeitador, não é satisfatório no sexo. Diante dessa situação e desejo incontrolável, Vadinho retorna dos mortos só podendo ser visto por Flor, que fará de tudo para resistir às tentações do ex-marido.

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A questão é; se esta premissa funcionou tão bem nos anos 70, provavelmente funcionará novamente em pleno ano de 2017, certo? Errado. A estória aqui, vendida como comédia, não passa de um filme vulgar, sujo e pornográfico envolvido em um roteiro fraco e sem objetivo, cujo único propósito é nos entregar duas horas de ‘novela pornô’, filmado nos mesmos moldes destas, porém, com toda exposição e nudez possível.

O cenário, é a Bahia dos anos 40 e… uma casa. Apenas. Além das cenas a céu aberto que repetem-se em cenários batidos, reutilizados diversas vezes, o restante da “””trama””” ocorre na residência da Dona Flor, similar aos cenários de novelas – não é surpresa dado o histórico do diretor. A repetição, no entanto, acaba sendo justificada, já que a cama da protagonista acaba se tornando o centro da narrativa.

E tratando-se deste aspecto – como a estória é contada – é outro ponto a desejar. O longa tenta despertar a curiosidade alheia ao ser narrado fora de ordem, porém, apesar de se tratar de uma boa estratégia, aqui ela não convence. Ao contrário, ficamos confusos com algumas revelações e não sabemos se aquilo é um flashback vivido pela personagem ou não. O roteiro, por completo, não passa de um soft porn sem profundidade alguma, que utiliza-se de uma escassa narrativa para justificar os eventos em tela.

Vale destacar também que, mesmo sendo adaptado a uma nova realidade que vivemos, o tema violência doméstica é romantizado na presente obra. Mesmo sofrendo abusos, assédios e agressão física, a personagem continua idealizando seu homem Vadinho e desejando-o como se nada tivesse acontecido. Embora isso ocorra na justificativa de estarmos no ano de 1940, é inegável que a abordagem dos produtores ao tema não condiz com o panorama atual da luta pelos direitos femininos e ao combate a este tipo de abuso.

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O elenco, composto pela renomada Juliana Paes é capaz de retratar, com fidelidade, toda promiscuidade e cafonice dos personagens originais. Paes tenta soar sensual, mas cai no clichê já mostrado nos anos 70, nos entregando as mesmas falas mal elaboradas, rasas e repletas de gemidos…e digo muito, muitos gemidos. A presente atriz está longe de se tornar qualquer estrela erótica, muito menos soar engraçada no papel que lhe fora dado. O que veremos são as mesmas expressões, caras e bocas já mostradas no seu último trabalho televisivo A Força do Querer, porém dessa vez com toda nudez frontal e traseira admissíveis, dignas de um filme adulto em que se mostra quase tudo.

Leandro Hassum, como o Dr. Teodoro – em papel incomum para a linha de filmes dos quais participa – procura manter a seriedade e mau gosto do metódico personagem. Mesmo esforçando-se, acaba mostrando suas caricatas expressões e falas com sotaque confuso/engraçado revelando que ele é o bom e velho comediante que já conhecemos, no papel errado.

Marcelo Faria, O Vadinho, está à vontade em sua parte tendo em vista que já encenou o presente personagem por mais de cinco anos em peças de teatro também baseadas no mesmo livro. Atuar completamente despido não é obstáculo ao artista, afinal, uma vez que o herói volta dos mortos para ‘assombrar’ sua ex-esposa, o faz completamente pelado e assim permanece até o final da projeção. O público terá uma visão, literalmente, ‘íntima’ de Faria ora que todo seu corpo é exibido, desnecessariamente, em tela revelando nudez frontal em diversos momentos e nudez traseira em todos os outros em que a nudez frontal não é mostrada. Assim alternam até o último minuto de imagem refletidas no nosso rosto.

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No quesito auditivo, parte importante da experiência cinematográfica, aqui é rebaixado à trilha sonora de novela. Os produtores não tiram vantagem dos 7.1 canais de áudio de um cinema, sendo a mixagem meramente audível. O som surround mal é notado e a ambientação das cenas restringem-se aos canais frontais. Lamentável.

Aliado à mixagem, a trilha sonora faz igualmente feio. Composta por dois temas principais; ‘Isso aqui tá bom demais’ de Dominguinhos, o insistente e cafona ‘É o amor’ de Maria Bethânia que alternam-se entre cenas ‘alegres’, com a reprodução do primeiro e cenas de sexo, de sexo, mais sexo e ‘romance’ com o segundo ao fundo. Religiosamente. O espectador mais atento será capaz de prever quando um ou outro será reprisado pela centésima vez.

No mais, estamos diante de um conto erótico jeca, que aparenta ser uma ‘novela pornô’ e nos brinda com os maiores clichês inerentes a este tipo de produção televisiva. Longe de ser uma comédia em qualquer forma, é um show de nudismo completo cujo roteiro só existe na intenção de embasar a obscenidade jogada na cara da plateia. O principal erro de Dona Flor e Seus Dois Maridos é existir, afinal, em época de ouro para o cinema nacional, ressuscitar este filme é um erro tão fatal quanto Dona Flor ressuscitar Vadinho… é apenas um desfile de corpos nus agasalhados por uma cinematografia pobre e brega.

 

 

 

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Thiago

Professor de inglês e Advogado. Apaixonado por música, filme e pizza!
  • João Velardi

    Seguindo os critérios “feministas” do autor desta crítica, Nelson Rodrigues deveria ser banido pra sempre das livrarias, e do audiovisual… Engraçado que ele próprio se desmente e justifica o fato da agressão pela ambientação, mas mesmo assim por causa de suas ideologias pessoais quer triturar a razão e, a premissa citada lá no começo do texto, na verdade só serve quando lhe convém.

Crítica | Dona Flor e Seus dois Maridos (2017)