Crítica | De Corpo e Alma


Drama húngaro aborda romance por uma ótica inusitada

Está programado para chegar aos cinemas brasileiros, dia 21 de dezembro, o novo filme do diretor húngaro Ildikó Enyedi, que também assina como roteirista. De Corpo e Alma (Teströl és lélekröl, Hungria, 2017) é seu primeiro longa em 18 anos e já foi premiado 8 vezes, inclusive no Festival de Berlim.

A trama gira em torno de Endre (Géza Morcsányi, em seu primeiro longa-metragem), dono de um matadouro e de um braço paralisado. Quando uma de suas funcionárias, responsável pelo controle de qualidade precisa afastar-se, vem a conhecer a reservada Mária (Alexandra Borbély), que ocupa a posição vaga. Curiosamente, ambos têm o mesmo sonho à noite – como um casal de cervos – que vivem juntos numa floresta. Ao descobrirem que conseguem ver um ao outro neste cenário utópico, nasce um sentimento que aproxima os dois personagens na vida real também.

Com base nessa premissa, o diretor nos apresenta uma obra sensorial que foca em detalhes sublimes e nas entrelinhas, agasalhado por uma grande camada de tédio graças ao passo extremamente lento da narrativa.

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À primeira vista, a produção em análise é um colírio para os olhos. Desde as primeiras cenas até o último take, é possível vislumbrar o quão detalhada e cuidadosa a fotografia é. Seja para chocar, como em tomadas que retratam toda brutalidade de um matadouro, ou para conectar o público com o cenário que os cerca. As emoções dos atores também recebem grande atenção das lentes; olhares e expressões faciais inundam a tela, contribuindo ainda mais à fotografia que encantará os frequentadores que prezam por este quesito em uma obra cinematográfica.

Por outro lado, o mesmo não pode ser dito do roteiro. Mesmo com uma premissa interessante, este falha em criar uma sequência lógica de eventos que encaminham-se a um clímax. Os protagonistas são mal explorados e informações importantes sobre seus passados são omitidas. Há muito diálogo desnecessário em cenas que não acrescentam ou entregam qualquer problemática ou conflito. O roteiro caminha em linha reta, mostrando uma hora e cinquenta e seis minutos de cenas onde apenas metade delas são ‘importantes’ e de repente, sem nenhuma conclusão, os créditos finais sobem e as luzes da sala de projeção acendem-se.

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Somado a esta falha, a performance robótica e sem química entre os atores não ajuda. Podemos notar que a intenção do papel entregue a Alexandra Borbély deveria ser de uma pessoa complexa e introvertida. Entretanto, o que é visto na tela não condiz com este desejo, já que a atriz mantém suas expressões faciais e corporais inalteradas durante a maior parte da obra. Em igual estranheza, Géza Morcsányi soa mais artificial ainda. O ator não transmite a sensação de estar interpretando alguém que apaixonou-se de verdade. A química entre eles simplesmente não existe. O amadurecimento de sentimentos que deveria acontecer com dois estranhos ao atraírem-se um pelo outro não ocorre.

Conforme dito em linhas pretéritas, o diretor/roteirista cria neste longa uma experiência sensorial. Junto com sua mega detalhada fotografia, o cineasta a entrelaça à mixagem de som igualmente detalhada, um pouco até demais. Sons de garfos entrando em bocas, grilos num jardim e até mesmo um latido distante de um cachorro são amplificados e soam muito mais alto do que na vida real, chegando a causar certo incômodo no espectador.

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É como se fosse uma “fotografia auditiva”, que por sinal, é muito bem distribuída tanto nos três canais frontais, quanto nos quatro canais surround. Infelizmente, a trilha sonora que deveria dar mais profundidade emocional aos eventos é quase inexistente, sendo composta apenas de dois temas principais que alternam-se em poucas cenas, em quase duas horas de duração. Outras peças musicais são ouvidas em segundo plano, enquanto os próprios personagens a escutam no carro ou no radio.

No mais, estamos diante de uma obra digna do Festival de Berlim, afinal, o perfil da produção assemelha-se a quase todos os longas que são premiados por lá. Longo, monótono e confuso, porém, com excepcional fotografia e som detalhado, é um título que agradará apenas um nicho específico de frequentador, que recomendará a presente obra destacando o quão soberbe sua fotografia é.

 

Com ajuda do Review

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Thiago

Professor de inglês e Advogado. Apaixonado por música, filme e pizza!

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