Crítica | Ao Cair da Noite

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O cinema de terror e suspense vem se reinventando ao longo dos anos. O público – impaciente e exigente – com obras do gênero, já cansou e saturou dos típicos clichês que embalam os filmes trash muito comuns dos anos 80. Entretanto, uma nova leva de produções de suspense, thriller e terror anda provando que o gênero em questão está longe de morto ao nos presentear com tramas bem construídas e terror psicológico de qualidade. Este é ‘Ao Cair da Noite’ (It Comes At Night,2017).

Com estreia programada para o próximo dia 22 de junho, o telespectador vai vivenciar muito suspense na telona. A trama ambienta-se em um aparente, e pouco explicado, mundo dominado por um vírus que infecta rapidamente o corpo humano e é altamente contagioso. Não… Não são zumbis. A ‘doença’ apresentada no longa aterroriza porque é muito similar a outras enfermidades reais, que ouvimos falar no noticiário.

Paul (Joel Edgerton, de Em Busca da Justiça), é pai de família e vive em uma remota casa, completamente selada com tábuas, em companhia de sua esposa Sarah (Carmen Ejogo, de Animais Fantásticos e Onde Habitam) e seu filho Travis (Kevin Harrison Jr. De O Nascimento de uma Nação). Isolamento, melancolia e medo constante tomam conta do trio e todos são absolutamente proibidos de sair da casa à noite.

It Comes At Night (2017) Eric McNatt/A24

Tudo ganha novos rumos a partir do momento que um estranho invade propriedade, Will (Christopher Abbot, de Sweet Virginia) alegando que sua esposa Kim (Riley Keough, de Mad Max: Estrada da Fúria) e seu filho Andrew (Griffin Robert Faulkner, em seu primeiro longa metragem) estão desesperadamente precisando de água e comida e aguardando em uma casa distante dali. Em meio a paranoia e desconfiança, as famílias farão o que for preciso para sobreviver.

Baseando-se nessa premissa, a história é contada de forma crua e intensa. O roteiro ignora os clichês típicos e aborda a situação catastrófica vivida pelos personagens, como se fosse de fato uma epidemia que pudesse acontecer na vida real. Esta abordagem faz de Ao Cair Da Noite, um longa de narrativa lenta e gradual, podendo não agradar os espectadores mais ansiosos que prezam por celeridade. Além do suspense, somos imergidos em uma boa quantidade de drama pessoal, dos personagens, proporcionando ao público uma reflexão ética e moral: ‘até onde eu iria para proteger minha família deste contágio?’

O cenário em que convivemos com os protagonistas durante os 90 minutos de projeção, é desolador, silencioso e … mórbido. A fotografia é belissimamente trabalhada, mostrando o belo entardecer amarelado em meio à neblina que corta os pinheiros que rodeiam a casa fortificada. No interior desta, não há luz elétrica, e toda claridade é originada de lanternas e velas. Do lado de fora – onde ninguém atreve-se de ir – é ainda pior, não havendo qualquer luz. Uma vez escuro, não mais temos a calma fotografia melancólica, mas sim a própria visão dos personagens por cima de suas armas, angustiante e amedrontada.

O elenco é sem dúvida quem dá o tom da produção, já que quase todas as emoções que sentimos são originadas através deles, apenas. Paul, chefe da casa, é rígido e pouco sabemos sobre seu passado, mas seu punho de ferro é o que mantém sua família viva. Sarah, esposa e mãe, dá todo apoio às decisões de seu parceiro, mas é igualmente corajosa, sabendo manusear todas as armas e agir, quando necessário.

A parte mais frágil do trio é Travis, adolescente de 17 anos, que vaga pelos corredores sombrios da mansão, à noite, entediado, com insônia. Ele não compreende a paranoia dos pais, mas aceita. Suas atitudes inconsequentes, porém completamente normais, caso não vivessem em um universo contaminado, são frutos de empasses e atritos que surgem durante o progresso do roteiro.

Pouco sabemos sobre a família de Will, o intruso. Ele alega ser bem intencionado, entretanto, chega a se contradizer em certos momentos. A plateia fica sem saber se aquele misterioso intruso veio para ajudar, ou tirar os suprimentos da família de Paul. Se bem que num universo apocalíptico, onde o ser humano retorna ao estado natural, é difícil rotular as pessoas de boas ou más, o que existe é sobrevivência. Apenas.

A obra em análise vem conquistando boas críticas ao redor do mundo, inclusive com alta aprovação no site Rotten Tomatoes. Creio que tal acontecimento é devido ao fato de tratar-se de um longa tangível, que poderia acontecer. Isso assusta bastante. E também por ser mais um drama do que um terror. Aqueles que gostaram de ‘A Bruxa’ (2015), sem dúvida terão uma boa sessão de ‘Ao Cair da Noite’, porém, se você prefere o terror sangrento ou repleto de demônios como ‘Madrugada dos Mortos’ (2004) e ‘Sobrenatural’ (2010) respectivamente, talvez não se empolgue tanto com a ausência de um inimigo físico e lentidão na narrativa. No mais, um bom e esforçado filme que diverte e emociona.

 

Avaliação: 80% – Muito bom!

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