Crítica 2 | Corra!

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Título original: Get Out

Ano: 2017

Gênero: Horror, Mistério

Duração: 104 min. (1h44min.)

Classificação: 14 anos

Roteiro: Jordan Peele

Direção: Jordan Peele

Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, Stephen Root, Lakeith Stanfield, Catherine Keener

Acesse o site oficial do filme, clicando aqui.

 

Por Pedro M. Tobias

“Crítica social disfarçada de filme de terror”

 

Desde que foi lançado nos EUA, no final de Fevereiro, Corra! foi um enorme sucesso, tanto de público quanto de crítica. Mesclando elementos de terror e suspense com a questão racial, o longa escrito e dirigido pelo ator Jordan Peele finalmente chegou aos cinemas do Brasil no final de Maio.

Obs.: A crítica contém spoilers leves do filme.

O filme acompanha Chris (Daniel Kaluuya), que viaja com a namorada Rose (Allison Williams) para conhecer os pais dela durante um fim de semana. O comportamento exageradamente amoroso por parte da família dela, inicialmente é visto por Chris como uma tentativa de lidar com o fato dele ser negro. Conforme o final de semana passa, e uma série de estranhos eventos começa a acontecer, ele percebe que há algo de errado com eles.

O terror em Corra! é usado apenas como ponto de partida para a crítica social desenvolvida por Peele (“Cegonhas“, “Keanu: Cadê Meu Gato?!“). Em determinado momento a personagem de Allison Williams (“College Musical“, “Peter Pan Live!“) fala que os pais não são racistas, e portanto, não desaprovariam seu namoro com Chris apenas por ele ser negro. Ao longo do filme, contudo, o roteiro vai mostrando como o racismo está inserido na sociedade e é levantado mesmo que intencionalmente aqui e ali, sobretudo através de expressões que denigrem a imagem da comunidade afro-americana.

O trabalho de direção de câmera de Peele é incrível, sobretudo levando em consideração que este é seu primeiro filme como Diretor. A cena que abre o longa, um plano sequência com um travelling para trás com ponto de fuga, foi decupada de tal forma que todos os elementos abordados ao longo da narrativa são introduzidos, sobretudo o racismo. O agressor ali retratado não tem seu rosto mostrado, ele é completamente desumanizado em detrimento da abordagem dada a Andrew (“Snowden: Herói ou Traidor“, “Atlanta“). Há, inclusive, uma rima quando, mais à frente, Chris, Rose e seus pais aparecem em uma cena com um enquadramento semelhante.

Todo o peso dado ao racismo pelo roteiro é acentuado pelo primoroso trabalho de Montagem de Gregory Plotkin (“Atividade Paranormal 4“, “Atividade Paranormal: Marcados pelo Mal“) e de Edição e Mixagem de Som, assinados respectivamente por Joshua Adeniji e Jeffree Bloomer. As atuações são, em geral, comedidas, buscando chamar pouca atenção para si. O olhar de cada personagem diz muito mais que o que realmente os ouvimos falar, sobretudo o protagonista vívido por Daniel Kaluuya (“Kick-Ass 2“, “Sicario: Terra de Ninguém“). As micro-expressões percebidas principalmente pela forma como ele reage aos acontecimentos envolvendo a família Armitage dão ao personagem um ar de desconfiança que pode tanto refletir apenas o “terror” do filme, quanto o tratamento racista que ele recebe.

Apesar da originalidade na abordagem do tema través do terror e do suspense, Corra! tem seus problemas, sobretudo de narrativa, a partir do final do segundo ato. A fim de justificar toda a trama envolvendo a família Armitage, Peele abre mão da crítica social tão bem construída até então. Há espaço, inclusive, para diálogos expositivos onde o “vilão” explica seu plano maligno.

A cena final, apesar de encerrar dignamente a obra, perde muito de sua potencialidade se comparada com a versão “alternativa” que pode ser vista aqui, e foi tirada do filme apenas no corte final, segundo informações do próprio Diretor. De qualquer forma, a abordagem original de um tema que ainda é tabu mesmo em 2017, faz com que esse seja um filme que mereça ser visto e discutido.

AVALIAÇÃO GERAL: 80% (ÓTIMO)

 

Assista ao trailer:

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  • Fernando Machado

    Aeeee ótimo texto! Concordo com alguns problemas na resolução, mas vejo como um pequeno escorregão que não compromete em nada o filme.
    Abraço!