Crítica 2 | A Grande Aposta


Título original: The Big Short

Ano: 2015

Gênero: Biografia, Drama

Duração: 130 min. (2h10min.)

Classificação: 14 anos

Roteiro: Adam McKay

Direção: Adam McKay, Charles Randolph, baseado na obra de Michael Lewis

Elenco: Ryan Gosling, Christian Bale, Steve Carell, Marissa Tomei, Brad Pitt, Rafe Spall, Hamish Linklater, Jeremy Strong, John Magaro, Finn Wittrock, Jeffry Griffin

Acesse o site oficial do filme, clicando aqui.

 

Por Pedro M. Tobias

“Aborda com respeito um tema complexo sem perder o humor”

 

No começo da década de ’90 teve início o processo de expansão da área de atuação das instituições financeiras. Em busca de mercados novos e mais lucrativos, o que implica maiores riscos, a atenção dessas empresas voltou-se para o mercado de financiamento imobiliário norte americano. A fim de ampliar a atuação do setor, cujas características são de crescimento lento, foi aberto o mercado dos tomadores de empréstimo chamados de subprime mortgage.

Basicamente os bancos concediam empréstimos de alto risco sem comprovação de renda. Como tais empréstimos eram dificilmente liquidáveis, isso é, não geravam fluxo de caixa facilmente para os bancos concedentes, eles criaram um sistema de securitização desses créditos. Um conjunto desses créditos era agrupado e convertido em derivativos negociáveis no mercado financeiro, os chamados CDOs (do inglês Collateralized Debt Obligation). Aliado a essa nova (e potencialmente perigosa) estrategia, o FED (do inglês Federal Reserve System), à época presidido pelo economista Alan Greenspan, ‘relaxou’ as normas regulatórias que regiam o sistema financeiro como consequência do forte lobby feito pelos bancos.

Nesse contexto, o filme narra a história real de alguns personagens que, ao analisar o mercado financeiro, puderam prever a crise e apostar contra os grandes bancos e corporações de Wall Street.

Na trama, Michael Burry (Christian Bale) gerencia um fundo de investimentos, a Scion Capital LLC. Ao investigar a fundo o complexo sistema dos subprime mortgages, ele percebe a formação de uma bolha no sistema imobiliário (em decorrência dos fatores citados acima). Certo de sua descoberta, Michael investe boa parte do montante que gerencia em Swaps de Crédito (em inglês, CDS – Credit Default Swaps) em desfavor do mercado imobiliário. De forma (não tão) simples, um CDS funciona como uma apólice contra o inadimplemento de certa obrigação, no caso, as hipotecas subprime.

Ao saber das transações milionárias de Burry, o ambicioso corretor do Deutsch Bank Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe a oportunidade de lucrar e passa a oferecer CDS a seus clientes. Um deles – por conta de um mal entendido – é Mark Baum (Steve Carell), que gerencia a FrontPoint, uma subsidiária da Morgan Stanley, uma das maiores corretoras do mundo. Em paralelo, a dupla de amigos Jaime (Finn Wittrock) e Charlie (John Magaro), sócios na Brownfield Capital, acabam sabendo da nova modalidade de investimento e, com a ajuda de Ben Rickert (Brad Pitt), passam a também comprar Swaps de Crédito.

Ciente de estar diante de um tema complexo e de difícil abordagem, o Diretor Adam McKay (“Os Outros Caras“, “Tudo Por um Furo“) fez escolhas criativas admiráveis (e corajosas) no que diz respeito ao tom cômico do filme. As gags que beiram o nonsense que só um diretor com experiência em comédia saberia orquestrar, bem como as constantes quebras da quarta parede fazem contraponto aos tecnicismos inerentes ao mercado financeiro (CDOs, Swaps de Crédito, Classificação de Risco, Hedge, etc.).

Apesar da suavização, a quantidade considerável de termos técnicos – sem os quais seria impossível contar a história da Crise de 2008 – podem incomodar o espectador menos familiarizado com o funcionamento do mercado financeiro. Mesmo nesse sentido, é interessante observar a inclusão de nomes como Margot Robbie, Selena Gomez ou do Chefe de Cozinha Anthony Bourdain explicando através de metáforas os conceitos mais relevantes para a compreensão do filme em cenas em que falam diretamente para o espectador.

Em certo ponto, os movimentos de câmera, os constantes zoom ins e a constante instabilidade da câmera chegam a incomodar o espectador, contudo, isso só reforça o caráter documental do filme, apesar do roteiro lembrar a todo instante que certos eventos foram alterados da história original. Contribui decisivamente para a narrativa, a montagem genial de Hank Corwin (“A Árvore da Vida“, “Jimi: All Is by My Side“). O excesso de jump cutsfast cutsflash forward e cortes secos, aliados a montagem paralela são imprescindíveis para compor o mise-en-scène temporal, situando a sucessão de eventos no tempo e espaço.

Impossível não mencionar a coesão do elenco. Christian Bale (“Êxodo: Deuses e Reis“, “Cavaleiro de Copas“) entrega uma atuação que impressiona no modo como seu personagem reage aos demais, bem como o olhar fixo e as expressões faciais que demonstra. Brad Pitt (“Corações de Ferro“, “À Beira Mar“), que também produz o filme, aparece quase como um coadjuvante de luxo, um homem descrente da humanidade que se prepara para o colapso global.

Ryan Gosling (“Caça aos Gângsteres“, “Só Deus Perdoa“) é Jared Vennett, um corretor que apesar de trabalhar no mercado bancário, não pensa como um banco, como citado pelo próprio personagem em determinada cena. A ganância do personagem é retratada de forma propositalmente caricata, quase como que de forma a contrapor o que o personagem de Steve Carell (“Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo“, “Freeheld“) representa. Mark Baum (Carell) é um desiludido com o “sistema”, que após perder o irmão passa a combater internamente a ambição e a sede de poder que ele acredita terem tomado conta de Wall Street.

Divertido, mesmo ao abordar temas considerados enfadonhos, A Grande Aposta trata a crise com o devido respeito sem perder o limiar a que se propôs. O objetivo não era dissecar por completo os eventos que levaram a uma recessão igualável à de 1929 (para isso, assista o excelente Trabalho Interno, vendedor do Oscar de Melhor Documentário em 2011), mas sim despertar o interesse do público pela Crise de 2008.

AVALIAÇÃO GERAL: 90% (EXCELENTE)

 

Assista ao trailer:

O que você achou disso?

Chorei Chorei
0
Chorei
OMG OMG
0
OMG
Fail Fail
0
Fail
Amei Amei
0
Amei
Medo Medo
0
Medo
QUE?? QUE??
0
QUE??
Pedro M. Tobias

Hier encore javalis vingt ans! "O caminho do homem justo está cercado por todos os lados pela iniquidade dos egoístas e a tirania dos maus" (Ezequiel 25:17)
  • Geylson Serra

    Uma excelente crítica. Permite a compreensão, pela suavização dos conceitos, dos termos técnicos usados no mercado financeiro.

Crítica 2 | A Grande Aposta